Doença renal crônica é destaque em congresso brasileiro de nutrição

 

Para compreender a síndrome MIA, é preciso entender que uma das principais causas de mortalidade dos pacientes renais crônicos é a cardiovascular. A afirmação foi feita pela nutricionista Cristina Martins nesta segunda-feira (30), em Natal (RN), onde participa do XVIII Congresso Brasileiro de Nutrição Parenteral e Enteral. O evento começou nesse domingo (29) e vai até 02 de dezembro.

 

Em sua palestra “Nutrição clínica: MIA (má nutrição, inflamação, aterosclerose), Martins esclareceu que os problemas cardiovasculares estão relacionados, principalmente, à aterosclerose. E que há causas diferentes para a ocorrência dessa doença inflamatória naqueles pacientes.

 

“O processo inflamatório e a má nutrição são bem estabelecidos como causas importantes da aterosclerose e, portanto, da alta taxa de mortalidade dos pacientes. Por isso, a tríade ficou conhecida como síndrome MIA”, explicou.

 

A diretora do Instituto Cristina Martins de Educação em Saúde, com sede em Curitiba (PR), ainda afirmou que a má nutrição é um problema comum do paciente renal crônico. Segundo ela, as causas da má nutrição são muitas.

 

“A baixa ingestão alimentar por motivos psicológicos, como a depressão, é uma causa importante. Porém, existem situações vividas no dia-a-dia, como o sangue em contato com membranas dialíticas, que podem conduzir a um quadro inflamatório crônico. E isso, além de ser de difícil controle, afeta diretamente o estado nutricional do indivíduo”, informou.

 

Ao comentar sobre a gravidade do processo inflamatório em pacientes renais crônicos, Martins afirmou que, ainda, pouco se sabe sobre todos os cuidados que podem eliminá-lo ou controlá-lo.

 

“Nosso grupo da Fundação Pró-Renal Brasil, liderado pelo nefrologista Miguel Carlos Riella, em parceria com o Karolinska Institutet, da Suécia, é um dos que mais estuda a inflamação de pacientes renais crônicos no mundo. Na área da nutrição, sabemos que melhorar o estado nutricional como um todo é, sem dúvidas, prioridade no tratamento do problema”, disse.

 

Segundo ela, outras intervenções, embora com estudos ainda pequenos, são a suplementação do tocoferol e do ômega-3, presente nos óleos de peixe, e o uso da soja. “Esperamos que, num futuro próximo, e com os avanços da tecnologia e das pesquisas, o problema seja coisa do passado. E a vida de nossos pacientes possa ser prolongada”, afirmou.

 

Doença - No segundo dia do Congresso, Martins também proferiu a palestra “Nutrição na progressão da doença renal crônica”.  Na ocasião, ela lembrou que a doença é composta por vários estágios. “Antes da necessidade de diálise ou transplante, o indivíduo pode evoluir lentamente nos estágios, durante décadas. Ou a evolução pode ser rápida. Desde o Estágio 1, que é o risco para o desenvolvimento da doença, a nutrição tem papel importante”, esclareceu.

 

De acordo com a nutricionista, está bem claro que a obesidade, relacionada à hipertensão, à perda de proteínas na urina, ao diabetes e à dislipidemia, é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença. “Porém, depois do problema instalado, estudos mais recentes mostram que a obesidade, embora possa ser fator importante para a progressão da doença, está inversamente relacionada à mortalidade dos pacientes. E, o pior: a perda de peso, mesmo para aqueles com excesso, aumenta significativamente o risco de morte”, afirmou.

 

Martins também explicou que o manejo do peso dos pacientes renais crônicos, durante a fase não dialítica, é um grande dilema para os profissionais da área. “Nesse momento, a maior discussão é em relação à conduta de indicar, ou não, a perda de peso para um paciente obeso. Se continuar obeso, poderá manter fatores de risco para a progressão mais rápida da doença. Mas se perder peso, aumentam as suas chances de morrer antes”, disse.

 

Para ela, a opção pela preservação da vida parece ser a mais adequada. Ou seja, concentrar esforços para manter o paciente no peso em que ele se encontra, sem tentativas voluntárias de perda. Porém, outros tratamentos associados são essenciais, como o uso de medicamentos anti-hipertensivos e um estilo de vida mais fisicamente ativo.

 

A nutricionista também abordou o papel da ingestão proteica na progressão da doença renal crônica. Foram mostrados estudos sobre a influência da quantidade e da qualidade das proteínas ingeridas na progressão da doença.

 

“O ideal é que a ingestão proteica seja baixa. Resultados de estudos, publicados pela Fundação Pró-Renal Brasil, concluem que a carne vermelha é a que mais afeta a função renal. Já a soja é o tipo de proteína melhor indicado, porém ainda dentro de quantidades recomendadas e controladas”, acrescentou.

 

No final, a nutricionista apresentou uma proposta de Pirâmide de Alimentos adaptada às recomendações nutricionais de pacientes renais crônicos na fase não dialítica da doença.

 

Por André Franco

 


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